Importante retrocedermos um pouco na historia do pensamento filosófico capitalista e extrairmos daí algumas reflexões sobre o tema do consumo utilitário e do consumo do supérfluo e procurar entender como o pensamento mercadológico e a própria sociedade de consumo passou a interpretar o consumismo moderno.
O pensamento filosófico liberal estabelecia as bases para o desenvolvimento de uma sociedade baseada no livre interesse pessoal. O indivíduo é enaltecido e seus desejos, valores pessoais e escolhas refletem sua liberdade. Os indivíduos procuram satisfazer seus interesses privadamente, baseados na ação e escolha racional, agem sabendo o que querem e têm preferências pré-definidas que precisam ser satisfeitas.
Estes indivíduos são autônomos e quando buscam satisfazer seus desejos buscam por utilidade – atributo abstrato que determinado bem possui de satisfazer um desejo. Segundo o pai da escola Utilitarista, Bentham, a utilidade seria “(…) a propriedade de qualquer objeto, por meio do qual ele tende a produzir benefícios, vantagens, prazer, bem ou felicidade, ou reduzir a dor”.
Os bens não têm utilidade em si, mas somente aos olhos dos observadores, e a utilidade de um bem está na esfera do juízo individual particular. Um bem tem utilidade quando estamos dispostos a comprá-lo, diz o pensamento utilitarista neoclássico. Preferências são interesses manifestados ou revelados, e o ato de consumo é uma ação que indica a livre preferência. Não interessa saber o porquê se fez determinada escolha e compra, nem compreender as motivações ou necessidades latentes.
A filosofia da economia liberal substitui a variância e pluralidade dos desejos humanos por um único desejo, o desejo de utilidade, motor e motivação única, de interesse livre, racional e individual. O ato racional é maximizar a utilidade. A forma que a riqueza material da sociedade moderna deve assumir é ditada não por objetivos e critérios sociais sobre o que seria o conceito de vida boa, e sim, pelas preferências constituídas no âmbito privado, que não podem e não devem ser julgadas.
O consumo é soberano porque o individuo é soberano. Somente os indivíduos são os árbitros e autoridades sobre seus desejos e a razão nasce das sensações e limita-se a observação do que existe – valores ou objetivos particulares. Se os indivíduos decidem dedicar parte de suas energias para parecerem jovens, bonitos e em forma, trata-se apenas de uma escolha livre destes indivíduos, e essa opção é racional por mais irracional que seja sua forma de pô-la em prática. O verdadeiro centro do mundo são os prazeres e apetites mundanos.







