Lilica – este era o nome da cadelinha – estranhou o dono sair e ela ficar. Resmungou um pouco, minha esposa e eu fomos brincar com ela, jogando a bolinha, ossinhos e brinquedinhos para distraí-la. No primeiro dia ela fez greve de fome, recusava tudo que colocávamos no pratinho. Preocupada, Denise resolveu servir o alimento colocando direto na boca. Olha que mimo! Ela nunca fez isso por mim.
Na manhã seguinte a cadelinha me acordou lambendo a minha mão que escapava sob o lençol – eram seis da manhã. Que bicho danado. Acordei assustado, mas não levantei. Virei para o outro lado e deixei Lilica lá, fingindo que não tinha sido comigo. A cadelinha, sabendo que eu já tinha dado sinal de vida, latiu, latiu e latiu, até que eu me levantei por definitivo. Seis e quinze da manhã, que bicho infeliz. Isso só fez reforçar minha aversão para ter animais de estimação. Acordar não foi suficiente. A pequena cachorrinha tinha energia concentrada que era recarregada durante a noite. Não bastava estar de pé lhe fazendo companhia – ela queria brincar, correr, passear e fazer mais coisas na primeira hora do dia do que eu faço o dia inteiro.
Às oito da manhã, como todos os dias, eu e Denise tínhamos que ir trabalhar e Lilica ficou lá olhando a porta se fechar sem saber o que se passava. Foi estranho deixar um animalzinho sozinho no apartamento, é preocupante e até um pouco triste. Foi difícil aceitar que a cachorrinha ficaria bem sem companhia, sem o som de um rádio e da televisão, pensei até em levá-la comigo. Será que ela estando sozinha brincaria com os ossinhos? Com a bolinha? Como é ruim sair e deixar um bichinho ali, apenas com uma porção de ração e um tanto de água. Neste primeiro dia eu descobri como se humaniza um bicho.
Ao chegar em casa, já de noite, eu havia me esquecido completamente que tinha a ilustre “visita” em casa. Ao destravar a porta sou recebido com uma alegria… Uma alegria que não sei descrever. De verdade, nem me lembro de quando eu mesmo fui tão feliz. Lilica pulava, festejava e queria compartilhar tudo o que tinha feito durante o dia. Mostrou seu excepcional estado físico correndo pela casa toda. Saltando sobre as cadeiras, sobre os sofás. Orgulhosa, talvez, pelo seu grande feito, deita na sala no meio da confusão onde ela mesma espalhou pedaços do que foi minha coleção de revistas. O imprevisto me lembrou, mais uma vez, porque eu não queria um bicho. Comecei brigar com a cadelinha. Minha esposa achou que sou exagerado, que basta ensinar, basta apontar o mau feito ao bichinho e que o animalzinho não tem culpa. Até que ela avistou uma flor branca despedaçada – era a orquídea que ficava na varanda. Aquela orquídea eu tinha lhe dado de presente e ela cultivava com muito carinho.
– Lilica não deve ter gostado da cor e a mastigou. – Eu falei, tentando fazê-la sentir a mesma raiva, assim como eu sentia pelas minhas revistas. Ela, já ciente do meu jeito irritante de ser, não demonstrou nenhum descontrole. Até que…
– Ah! Olhe aqui Denise, ela também não gostou dos gerânios nem das violetas. Acho que ela tentou fazer amizade com suas plantas e não deu certo… – Ao recolher a terra revirada eu ia encontrando surpresas de galhos e folhas.