
Não necessita de maior explicação. Provérbios têm este dom mágico de expressar tudo em única frase. O entendimento é completo, da mesma forma que é distinto e particular. E é esta flexibilidade que o torna perfeito. Não importa quanto conhecimento ou cultura se tenha, porque o dito simplesmente se acomoda na situação. Para cada intrincado dilema pessoal, algum antigo pensador já resumiu a questão numa frase que resume o momento.
No meu caso, depois de alguns dias ouvindo o estrilar de grilos em minha cabeça vazia de inspiração, há o conforto de encontrar o pensamento: “Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe”. Da mesma forma, o alpinista diante a dúvida do desafio de escalar a montanha se decide com a frase: “Se cair, do chão não passa”. Já o meliante detido em flagrante, jura não ter participação do ocorrido, mas o delegado sentencia: “Dizei-me com quem andas e eu te direi quem és”. O jogador quando acredita ter ganhado pouco na roleta, num momento de iluminação, se conforma com o dito: “Melhor um pássaro na mão do que dois voando”.

Provérbios. Porque se encaixam tão perfeitamente? E não importa qual a situação, sua versatilidade sempre vem a calhar. Tanto faz que seja para o conforto do sobrevivente no funeral de seu par, o inconsolável empregado que foi demitido ou o deprimido apaixonado que foi deixado pela namorada. Sempre haverá alguém para resumir o momento com a frase feita: “Depois da tormenta, sempre vem a bonança”. E é só mudar o tom de voz, as palavras podem ser exatamente as mesmas, o provérbio toma outra forma e a pessoa entenderá do que se trata. O curioso é que o entendimento se converge, às vezes, de forma diferente para ambas as partes. Sendo assim, o interlocutor diz pensando numa coisa e não agride ao ouvinte que se contenta, porque ele ouve exatamente o que quer.
Nestes mesmos casos: o funeral, o funcionário despedido e o apaixonado abandonado, o ditado poderia ser outro. Como: “Aqui se faz, aqui se paga”. Isso muda tudo, porque está tudo dito sem dizer absolutamente nada. A quem ouve ou lê fica a curiosidade, porque foi que morreu? Que coisa grave fez para ser despedido? Foi abandonado por traição, por ciúme? Que fizeram para merecer isso? Mas, aí já passa para o campo da especulação e já não é mais jurisdição dos provérbios.



