
Os rios e mares já estavam lá, árvores e montanhas sentiam o vento soprar por elas. O sol, a lua, as estações, já estava tudo definido, mas aquilo Ele não considerou um começo. Precisava haver olhos, só com eles seria possível entender o todo que havia construído.
De que adiantariam flores de formas e cores tão diferentes, chapadões, baías, quedas d’água e vulcões quando não se há olhos para observar? Assim foi feito. Pássaros passaram a cruzar os continentes, animais rastejantes observavam de perto todos os detalhes. Na sequência, toda sorte de bichos foram tomando o mundo. Ainda assim, havia uma decepção, por mais beleza que houvesse, ainda não era a marca digna de um início. Tantos milhares de anos, tanta dedicação e paciência para quê? Asas, patas, escamas, antenas, unhas, dentes e narizes de infindáveis formas estavam acompanhados, cada um com seus olhos.


A decepção era que estes olhos não admiravam, nem se impressionavam com a grandiosidade. Toda reação era somente um movimento instintivo. Não demonstravam emoção ante o fabuloso. Que obra é esta que não obtém uma resposta? Um sim, um não, uma interjeição qualquer, bastaria. O que se ouve? Apenas o nada. A perfeição daquele mundo onde tudo era permitido, onde tudo era possível, tornou-se tediosa ao Criador. A Ele não chegava nenhuma palavra de reconhecimento ou ingratidão.
Assim, surgiu a maior de suas inspirações: a transgressão. Esta era a chave para que se instalasse o desejo. No mundo onde tudo era possível, não havia possibilidade de desejo. Como poderia? Sem a tentação do desejo, também não haveria uma resposta de satisfação ou frustração.
A solução? Os frutos de uma única árvore não seriam permitidos. Isto bastava. Não necessitava serem os maiores ou os mais bonitos, apenas proibidos. Assim foi. E aqui estamos nós. Donos dos únicos olhos que desejam e, só por isso, os que separam o bem do mal. Se por um lado, para o criador sua grande inspiração foi permitir a transgressão, para suas criaturas, o passo imediato foi inventar fechaduras e trancas. Já que um podia desejar, outro também poderia.


