– Do que a vadia estava falando? – Ele pensou antes de bater a porta, para não lhe bater na cara. Em seu julgamento, ela bem que merecia. Hermes há dias estava a ponto de explodir: como podia uma desculpa tão esfarrapada? E ela ainda tinha coragem de ser irônica. Este era o fim, fim que Hermes não aceitava. Filosofia, de onde ela tirou isso? Aquilo não tinha nada a ver com filosofia, a filha da mãe, na maior cara de pau queria era se safar.
A indignação de Hermes contaminou suas rotinas: reclamava da jornada de trabalho excessiva, sob a sacana explicação de que a empresa esperava ainda mais dos colaboradores, para atravessar o momento de crise. Discutia com o balconista o tamanho e a aparência muito clara do pão. Reclamava com o síndico sobre o barulho que fazia o cachorro do vizinho… Todos com desculpas esfarrapadas – falava sozinho, visivelmente desequilibrado – nem ela, nem ninguém assume que, por baixo de toda justificativa, há a imprudência, a desfaçatez, a cara de pau, isso sim é cinismo. E não era disso que se tratava? Claro que é. Cinismo puro.
Há dois mil e quinhentos anos, um discípulo de Sócrates já discutia que a vida virtuosa consistia na independência que se obtinha através do domínio dos desejos e necessidades. Sendo assim, a felicidade dependia da renúncia aos desejos criados pela civilização e também de abandonar as convenções sociais. Faz algum sentido?
Aperreado como estava, conseguiu ver, sim, todo o sentido. Agora tudo fazia sentido. O que ela havia feito era justamente se apegar a desejos, descaradamente. Quanto às convenções sociais, isso ela havia rompido. Mas que felicidade é esta? Desejo menos convenção social é a equação perfeita para o resultado ser a safadeza. Só isso. Safadeza, nada mais. E não seria nenhum filósofo grego de nome Antístenes ou Diógenes que o convenceria do contrário.
– Põe mais uma – pedia a quinta dose ao barman.
– Com todo respeito senhor, cínico é você.
– Como assim? Hermes empurrou a cadeira para trás, violentamente, espantando o pileque. Sem demonstrar espanto, o barman se explicou:
– Depois de tanta confusão, o que o senhor quer mesmo é que esta mulher não te abandone. Mas, Hermes também se explicou: