
Eu tomava sorvete, ela comia macadâmias. Olhando assim, à primeira vista, pode não parecer nada, mas era. Enquanto eu disfarçadamente analisava cada detalhe, ela – do jeito dela – também me observava. Sem nenhum assunto relevante que preenchesse aquele vazio de tempo eu partia a casquinha crocante. Ela estava ali imaginando o que viria depois, mastigando como quem não queria nada as suas castanhas.
Combinávamos. Era o que me pareceu, pelo menos até aqui. Este era nosso primeiro encontro. Não era exatamente um encontro romântico, era um encontro casual e encomendado, despretensioso apenas para comprovar que as fotos eram reais.
Nós só nos conhecíamos por fotos. Bom, a minha foto era mesmo real. Cabe alguma ressalva, concordo, estava um pouco modificada, mas a dela também. No fim, o que mais importa é que era eu na minha foto e na foto dela era mesmo ela. Pode-se pensar que isso não é substancial, mas é. Até aqui, bom para os dois – um empate, neste caso, é um resultado muito melhor do que uma vitória.
Ela escolheu o shopping, eu concordei. Era uma escolha sensata ou bastante experimentada? Suspeitei. Mas pelo amor de Deus, isso é pergunta que se faça? Reprimi a suspeita incabível no mesmo instante. Não convinha a dúvida ou o ciúme daquela que nem conhecia. Só concordei: você tem razão é mesmo uma escolha sensata.
– Me dá um pouco do seu sorvete?
Eu não ia dizer não. Era a primeira vez que nos encontrávamos. Claro que não ia dizer não. Odiei seu pedido, mas estendi para ela a pazinha e a casquinha, ela me ofereceu as castanhas.
– Não gosto de castanhas – lhe respondi.
– Eu também não gosto, mas estas são diferentes, muito boas. Australianas, alguém me disse. Experimente.
Eu não ia recusar. Não na primeira vez, já que estava lá o melhor era me atrever.
– Acho que o único sorvete que eu não gosto é o de chocolate. – Foi seu comentário com o meu sorvete na boca.




