
Mais uma vez estávamos sob a sombra da grande figueira. Caminhávamos duas vezes por semana no parque e o banco sob aquela árvore servia de apoio para o alongamento e a conversa, acompanhada com água de coco. Eu a conheci assim, caminhando, sempre no mesmo dia e no mesmo horário. Bonita, elegante e muito simpática. Sempre ríamos com as boas histórias que contava.
Era mesmo tão bonita… Como seria aos vinte e poucos anos? Era inevitável olhar para ela e não se fazer esta pergunta. Usava uma corrente fina com pingente de brilhantes, um par de brincos sofisticados que ajudavam a emoldurar o rosto, que, a cada dia se revelava tão agradável quanto encantador.
Às vezes me falava de seu marido, como foram apresentados pelas famílias. Não, não foram apresentados com propósito de casamento, mas, pela proximidade e amizade, as famílias esperavam e comemoraram com satisfação o enlace. Ele era um bom partido, me descrevia como se pudesse vê-lo ali, materializado na nossa frente, bom caráter, trabalhador, sem vícios… Estes eram os parâmetros para avaliar o paquera naqueles tempos. Sendo assim, ele deve ter olhado aquela loirinha, perguntado sobre seus conhecimentos de costura, cozinha e outras “prendas”. Assim fez sua avaliação do “broto”, suponho.
Ela relatava que o patrimônio conquistado tinha um resultado inegável, que os elevou ao status de “família vencedora”. Martha, este era seu nome, sabia que por muitos anos não era ela quem estava no escritório ou na produção, trazendo os dividendos do trabalho, mas era como um alicerce que o inspirava, um porto seguro que revigorava suas forças.
Tiveram três filhos e era ela quem estava lá, em casa. Atenta aos primeiros passos e às primeiras palavras. Cuidando da tosse e da febre. Ensinando matemática a um, ao mesmo tempo em que ajudava outro com colagens de recorte de revistas. Chorou com a filha, como se a dor também fosse sua, assim que aconteceu a primeira decepção amorosa. Mas tinha certeza absoluta de que tudo ia se ajeitar, os filhos cresceriam depois daqueles primeiros passos, escolheriam um curso na universidade e mais adiante seguiriam seus planos, inclusive, nesse trajeto as decepções amorosas faziam parte do percurso. E ela concluiu: a vida dos filhos vai ser, como nossa própria vida. Algumas vezes, eles tentam nos enganar, esconder pequenos segredos e travessuras, pensam que conseguem, faço de conta que acredito. Muitas vezes é conveniente, já que não tenho todas as respostas. Com minha mãe fiz exatamente a mesma coisa. Você não?
Quando ela me fazia uma pergunta, eu caía das nuvens, entretido que estava com a suavidade e a delicadeza de suas mãos desenhando as lembranças no ar. Martha tinha cinquenta e nove anos, olhos de um azul profundo e cabelos loiros clareados pelos brancos muito bem cuidados. Vaidosa, notava suas pulseiras e anéis. Sempre com uma maquiagem leve e roupa perfeitamente apropriada. Eu a ouvia e sentia o amor que existia tão vivo, mesmo depois de quarenta anos de convivência: era inspirador, ao mesmo tempo em que me envergonhava de ter rompido com meus relacionamentos nas primeiras dificuldades…



