Uma aglomeração se formava do outro lado da rua enquanto esperava que o garçom servisse meu café. Era uma tarde gelada e a fila em frente a porta do albergue crescia. Ninguém se falava, era uma fila muda. Não tinham nada para contar sobre o dia? Não tinham expectativas sobre que leito ocupariam? Talvez fossem desconhecidos entre si, e o excesso de frio os fez recorrer a um recurso menos arriscado do que a rua.
Uma garoa fina aumentava a sensação gelada, será que era por isso que não conversavam? Haveria algum arrependimento nesta altura da vida por estarem ali, às custas do abrigo público ou era uma escolha? Era fato que nada parecia abalar aquele amontoado de pedintes… Já este observador imaginava tudo que poderia ter sido feito de diferente, ou tudo aquilo que acabou dando errado para terem aquele destino. Numa situação hipotética arriscava imaginar: o que fariam se tivessem algum recurso? Eles que conhecem a dura rotina da rua, criariam uma instituição? Compartilhariam com os outros a boa sorte?
No fim da fila encosta um sujeito de postura diferente, mais ereto, de aparência mais limpa. O homem ficou algum tempo ali impassível, minutos suficientes para se tornar apenas mais um, até que retira uma nota de 10,00 R$ do bolso. Sem dizer nada ele estica a nota em direção àquele que está a sua frente. A fila nota a movimentação e repara no gesto, “dez” era um número expressivo, difícil de conseguir. Uma dúvida implícita reacende: será que Deus realmente existia? Aquilo era uma benção? O mendigo agradece o gesto inusitado e se sente dono de uma sorte que só a divindade teria explicação. Ele guarda a nota e tenta disfarçar a satisfação para não chamar mais a atenção. O que poderia ser um misto de culpa por não reconhecer o mérito em ganhar o dinheiro, ou o medo de ter que reparti-lo compartilhando o que viesse comprar com ele. A tentativa de disfarçar o ato não funciona e a fila silenciosa registra a movimentação incomum redobrando a atenção sobre o bondoso homem.
O sujeito misterioso, não esboça reação, nem diz nada. Aquele que recebeu a nota de 10, sente-se tão grato, quanto desconfiado, sabia de longa data que nada vem de graça… Mas não pareceu ser o caso. Passaram 5 minutos e aquelas pessoas absorveram o gesto incomum, voltando a rotina da espera. Entretanto, o homem generoso remexe seus bolsos e retira agora uma nota de 20,00R$ e a oferece ao segundo antes dele. A fila parece sofrer um golpe. Não havia explicação para atitude tão caridosa, quanto inusitada. Uma pergunta silenciosa percorre o grupo: Qual o critério de escolha que o homem faz para distribuir o dinheiro? O quê ele queria com aquilo?



