Cultura Trans – O prefixo de origem grega, TRANS, que significa “através”, “além de”, define bem a cultura atual, como explica o filósofo francês Jean Baudrillard.
Para ele essa questão vai muito além do Transexual, indivíduo que possui uma identidade de gênero oposta ao sexo designado no nascimento, e desta forma, muitas vezes, opta por fazer uma transição de seu sexo de origem para o sexo oposto.
É um movimento muito mais profundo do que aparenta e acontece simultaneamente nos mais diferentes setores da sociedade, passando pela política, pelas religiões, esportes, brinquedos, cultura e até pelos alimentos (transgênicos, gorduras trans, etc).
Para Baudrillard, é como se tudo tivesse perdido sua ideia original, se libertado de sua essência e do seu valor e começasse a se reproduzir indefinidamente em um estado de promiscuidade geral, não no sentido moral da palavra, mas evocando seu significado de mistura confusa e desordenada, isto é, tudo é misturado com tudo. Nada mais é suficiente em si, e em uma indiferença total a seu próprio conteúdo, entra numa autorreprodução ao infinito, replicando-se em uma espécie de fractal ou, para mim, tudo gira em um grande caleidoscópio se transformando.
Possivelmente, entre as principais causas deste fenômeno complexo, está uma mudança violenta provocada por uma grande transição cultural. Para Edward F. Edinger, no livro Ego e Arquétipo, estamos passando por uma reorientação psicológica coletiva equivalente em magnitude ao surgimento do Cristianismo das ruínas do Império Romano. Perdemos nossas bases. Nossa relação com a vida ficou ambígua – a pós-modernidade, está líquida! Como definiu de forma genial o sociólogo Zygmunt Bauman.
Vivemos uma espécie de pré-historia, onde tudo transa com tudo, tudo se mistura com tudo em busca do novo formato. Sob esta perspectiva, vemos nascer esportes como o MMA – sigla para Mixed Martial Arts, ou em português, Artes Marciais Mistas. Esporte que possibilita ao praticante utilizar qualquer golpe, de qualquer arte marcial, como boxe, jiu-jítsu, caratê, judô, muay thai, entre outras, incluindo golpes de luta tanto em pé, como técnicas de luta no chão. Perfeito para uma cultura TRANS.


Cultura TRANS: o MMA é um exemplo de Esporte TRANS, onde todas as artes marciais podem ser misturadas e os golpes TRANSitam entre os diferentes tipos de lutas
O vestuário evoca não só a transparência total, como temos visto na moda festa, mas também entre as principais tendências, o conceito TRANS se impõe e a ordem é saber misturar: diferentes épocas, estampa com estampa, estampa com texturas, crash de texturas… E os mais descolados estão entre aqueles que conseguem misturar as mais diferentes referências, para encontrar seu estilo único.

Na moda, a Cultura TRANS se traduz desde a transparência às misturas de todo tipo: diferentes épocas, estampa com estampa, estampa com texturas…
No livro A Transparência do Mal, Baudrillard, comenta:
A lei que nos é imposta é a da confusão dos gêneros. Tudo é sexual. Tudo é político. Tudo é estético. Simultaneamente. Tudo tomou sentido político, principalmente depois de 1968: a vida cotidiana e também a loucura, a linguagem, a mídia, assim como o desejo, tonam-se políticos à medida que entram na esfera da liberação e dos processos coletivos de massa.
Ao mesmo tempo, tudo tornou-se sexual, tudo é objeto de desejo: o poder, o saber, tudo se interpreta em termos de fantasmas e de recalque, o estereótipo sexual está em tudo. Ao mesmo tempo, tudo se estetiza: a política se estetiza no espetáculo, o sexo na publicidade e na pornografia, o conjunto das atividades naquilo que se convencionou chamar de cultura, espécie de semiologização* midiática e publicitária, que invade tudo — o grau Xerox da cultura.
Cada categoria é elevada a seu mais alto grau de generalização e, por isso, perde toda a especificidade e se desfaz em todas as outras. Quando tudo é político, nada mais é político, e a palavra já não tem sentido. Quando tudo é sexual, nada mais é sexual, e o sexo perde toda a determinação. Quando tudo é estético, nada mais é belo nem feio, e a própria arte desaparece.
Esse estado de coisas paradoxal, que é ao mesmo tempo a realização total de uma ideia, a perfeição do movimento moderno, bem como sua recusa, sua liquidação por excesso, pela extensão além dos próprios limites, pode ser retomado numa mesma figura: transpolítica, transexual, transestético.
Dentro desse fenômeno, ao político já não é suficiente governar, ele precisa ser um showman, mesmo em detrimento da sua ideia original de administrar. Ao esportista, não basta vencer suas competições, é necessário ser um craque também de marketing e vendas, o que divide sua energia. Assim, em todos os aspectos da nossa sociedade, essa cultura TRANS (além de, através de), vai proliferando.
Político TRANS: deputado brasileiro Tiririca em uma mistura de político e palhaço. A política se estetiza no espetáculo, o sexo na publicidade e na pornografia. Ao político já não é suficiente governar, ele precisa ser um showman, mesmo em detrimento da sua ideia original de administrar. No esporte não basta vencer competições, é necessário ser um craque também no marketing. Quando tudo é político, nada mais é político, e a palavra já não tem sentido. Quando tudo é sexual, nada mais é sexual, e o sexo perde toda a determinação. Quando tudo é estético, nada mais é belo nem feio, e a própria arte desaparece.
Constantemente quando acompanhamos através do Google Trends, os itens mais pesquisados nesse site de busca, aparece entre as principais palavras-chaves, a temática transexual, principalmente no que se refere às celebridades. Como vem acontecendo nos recentes casos do Bruce Jenner, padrasto transgênero de Kim Kardashian, que, aos 65 anos resolveu mudar de sexo e desde então bate todos os recordes de audiência onde quer que apareça.
Assim como o cartunista brasileiro Laerte Coutinho, que levou 57 anos para se assumir como transexual. Ou a celebridade Thammy Miranda que aos poucos vem se transformando no homem que desejava ser.
Bruce Jenner, ex-atleta olímpico que aos 65 anos resolveu mudar de sexo – Cultura TRANS
Quando um determinado assunto ganha força e vira uma tendência, nunca é algo aleatório ou imposto pela mídia, como muitos imaginam. Por trás desse interesse, há geralmente movimentos mais complexos.
Podem ser fenômenos que traduzam alguma angústia da sociedade que busca, ainda que de uma forma rudimentar, respostas e discussões para questões ainda confusas.





A celebridade brasileira
O cartunista brasileiro Laerte Coutinho levou 57 anos para se assumir como transexual















